segunda-feira, 28 de setembro de 2009

ESTA TERRA TEM PALMEIRAS ONDE NÃO CANTA O SABIÁ


Um curioso detalhe que muito me espantou no cenário português contemporâneo foi ter encontrado tantas palmeiras enfeitando as casas no Norte do país. Segundo me explicaram os próprios moradores, essa apetência pelas "arecáceas" é obra de retornados brasileiros ou simplesmente portugueses que tencionam dar um ar tropical às suas moradias lusitanas. Ora, nada mais representativo no que tange ao imaginário paradisíaco luso-tropicalista do que uma vistosa palmeira! Lembremo-nos da famosa Canção do Exílio, de um então estudante de Direito na Universidade de Coimbra, Gonçalves Dias – curiosamente fruto do amor entre um comerciante português e uma cafuza brasuca da melhor mestiçagem – que numa noite de verão, em 1843, não tendo mais tabernas abertas onde pudesse tomar um último trago de bagaço, deu pra cismar sozinho à noite.

Claro, os sabiás não cantam nas palmeiras de cá. Mas a verdade é que nem nestas nem nas brasileiras! Afinal, que me desculpe o saudoso estudante brasileiro, sabiás não gostam e nem nunca gostaram tanto assim de palmeiras; preferem, antes, árvores mais ramificadas, como um pé de goiaba ou uma laranjeira. Do que deduzimos: tanto o paisagismo minhoto contemporâneo quanto o poema romântico sentem saudade de um Brasil que é mítico.

E o psicodrama sobrevive no tempo e se expande no espaço da descoberta às avessas!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

DAS GAIVOTAS PORTUGUESAS


Então eu, que sou idólatra de todas as aves, das galinhas às araras, como é que poderia não me render aos encantos das gaivotas portuguesas?! São pássaros feitos de céu e mar - mesmo por isso, criaturas extremamente lusitanas. Sou capaz de observar essas enormes navegantes dos ares, horas a fio, como se com elas percorresse as bordas dum país que é pleno de lirismo. E quando mergulham na busca do alimento, como se o alimento fosse o próprio oceano, nada me resta senão o suspiro lastimoso de quem inveja asas.

Gaivotas na terra; tempestade no mar. Gaivotas no mar; tempestade dentro de mim.

Deixo-lhes com o belíssimo poema do surrealista Alexandre O'Neill:

Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

Aproveitem para conferir o poema musicado por Alain Oulman e lindamente cantado por Amália Rodrigues no seguinte endereço:
http://www.youtube.com/watch?v=TP4BnfUm0eI

SOBRE O MEU GALO DE BARCELOS


Turistas são sempre turistas. De modo que uma de minhas aquisições decorativas aqui em Portugal não poderia deixar de ser um galinho de Barcelos. Dá para imaginar um carioca com uma miniatura do Cristo Redentor sobre a mesinha de cabeceira? Ou um capixaba com uma panelinha mini de barro enfeitando a estante? Não dá, ?! Essas coisas a gente só faz quando vive longe de casa ou quando é turista. Ser turista nos liberta do senso de ridículo, traz-nos uma sensação de impunidade estética que só podemos experimentar neste contexto. O vestuário, por exemplo, todos nós temos uma roupa extravagante, cheia de estilo, que só temos coragem de usar quando estamos a milhas de distância de casa - um chapéu de sambista pós-moderno, um casaco de pele falsa ou uma calça árabe dessas que fazem as mulheres parecerem usuárias de fralda geriátrica. Até mesmo a nossa conduta social é capaz de se alterar em viagens a terras longínquas. Ritualizamos o prazer de nos representarmos enquanto personagens num teatro muito mais bufante do que o usual. Somos, neste contexto, aquilo que adoraríamos ser: curiosos, exaltados e imunes ao julgamento alheio. É como se voltássemos à infância, com a salvaguarda de toda a sabedoria que acumulamos até a vida adulta.

Mas voltemos a falar sobre o meu galo de Barcelos! A imagem deste ícone é, talvez, a mais marcante da identidade lusitana no exterior. Diante da aparição deste galináceo - normalmente rubro-negro - pensamos de imediato em Portugal (caravela, bigode, fado, pastelinhos de Belém, etc.). Entretanto, poucos são, até entre os portugueses, os que sabem que raio de bicho é esse que, saído de um reles galinheiro, tornou-se tão emblemático para a cultura lusitana.

Eu conto!!!

Há muitos e muitos mas mesmo muitos anos, os habitantes do pequenino burgo de Barcelos estavam todos ouriçados causa dum crime cometido para o qual ainda não haviam encontrado o responsável. No meio daquela confusão e troca de olhares acusatórios, eis que um certo galego desconhecido aparece do nada, sem quê nem porquê, e pára numa bodega barcelense a fim de refrescar os miolos cansados da viagem.

Bagaço vai, bagaço vem, os moradores acharam por bem deter o boto, digo, o galego, certos de que o forasteiro seria o criminoso em pauta. Pega daqui, pega de lá, o homenzinho jurava inocência e dizia ser apenas mais um peregrino a caminho de S. Tiago de Compostela para cumprir promessa. Sei. Deu então que o dito foi preso, julgado e condenado à forca, não apenas pela violação culposa da lei penal como também por ter evocado desrespeitosamente os nomes santíssimos de Nossa Senhora, S. Tiago e S. Paulo.

Fulo da vida, o galego usou de seu último pedido para ir ter com o tal magistrado que havia lhe condenado a um castigo tão descabido, mo'de fazer uma última súplica de justiça. Lá chegando, levado pelos oficiais, deu de fuças com o juiz a se fartar entre amigos numa mesa cheia de comes e bebes. Dizer nem é preciso, mas eu digo: riram-se muito do pobre galego, incrédulos de toda a inocência que asseverava. No que o condenado mais ou menos assim bradou:

- É tão certo eu ser inocente, como certo é que esse galo cantará no momento em que me enforcarem! - e apontou para o galo assado que esperava por ser banqueteado no centro da mesa.

Mais ainda se divertiram às custas do galego, que foi levado de volta à forca para cumprir o seu destino. Entretanto, pelo sim, pelo não, ninguém teve coragem de tocar naquele prato, fartaram-se antes com Arroz de Cabidela, Bacalhau, pastelinhos de Belém e 7Up bem gelada.

Então, diz a lenda (que eu aqui não apito), o que parecia absurdo realmente aconteceu. Na hora exata marcada para o enforcamento, o galo assado, de um só salto, cuspiu a ameixa que tinha fincada no bico e cantou o mais alto que já se ouviu um galo cantar! É certo que todos correram e a notícia se espalhou aos quatro ventos - boca em boca, jornais e até pelo facebook. O magistrado, trancadinho de medo de ser castigado pelos três santíssimos nomes outrora evocados, correu a ver se ainda tinha tempo de salvar o galego da forca. Tal foi a sua surpresa ao ver que já salvo estava por um nó mal dado na corda.

Pois foi, "touta dizere"! Réu absolvido e lenda eternizada!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

LITORAL ALENTEJANO

Estive no litoral do Alentejo no início do mês de Agosto e descobri (confesso que um pouco decepcionada) que Portugal tem praias paradisíacas. E eu que enchia o peito ao falar das maravilhas das praias do Espírito Santo, imaginando que inveja teriam os portugueses da minha pessoa apenas pelo fato de ter sido criada na rua detrás da pseudo, mas querida, praia de Camburi...

Tudo bem, orgulho ferido dói mesmo. Mas tiro o chapéu para o que vi e reconheço que as praias lusitanas, ao contrário do que sempre imaginei, são páreo duro para as brasileiras.

O que é melhor? A ausência, pelo menos nas tais praias que conheci, de vendedores ambulantes. Dá para ler um livro, mesmo com a praia cheia, pois não há música alta nem ninguém insistindo para que você adquira cangas pelo triplo do preço de mercado. A culinária alentejana também é digna de nota, principalmente porque eles adoram coentro e eu, que sou tão muito capixaba, concordo em gênero, número e tempero! Outro detalhe delicioso do lugar: um cheiro encantador que emana da vegetação costeira. Misto de flor e mar, um perfume indescritível.

Entretanto - e aí vem o pulo do gato - descobri que posso, sim, tirar vantagem ao falar do litoral do Brasil. A tal descoberta aconteceu-me no instante em que me convenceram, com o óbvio argumento do escaldante sol que nos cobria, a por os meus pezinhos brasucas na água do mar. Água gelada? Que nada! Era muito pior do que supunha! Tal era a sensação: entrar com o corpo aquecido numa banheira cheinha de pedras de gelo. Berrei, chorei, xinguei meio mundo lusitano, mas entrei, enfim, de cabeça e tudo, no mar do Alentejo. Uma daquelas emoções que ficam gravadas na memória pelo misto de gozo e pavor, como uma incursão numa montanha russa de três loopings.

Meus caros amigos capixabas, vocês podem estar pensando na água assustadoramente gelada da praia de Setiba. É pior, acreditem. Fisicamente, duas consequências a relatar: uma dor pungente nos ossos e um formigamento na pele que permanece por alguns penosos minutos mesmo depois de sairmos da água. Daí se compreende a razão de os portugueses gastarem fortunas só para ir pegar uma prainha aí na nossa terra.

Conclusão: o litoral alentejano é, sim, um deleite para a visão, a audição, o olfato e o paladar. Mas para o tato... só mesmo as praias brasileiras! Se a água do mar aqui não fosse tão gelada, talvez os portugueses nunca teriam se lançado ao Atlântico em busca do paraíso perdido. Sorte? Azar? Quero lá saber!

DUAS IRMÃS DESARRANJADAS

Dia desses, estava eu conversando com o meu português (não sei se já lhes contei, mas tenho um que diz ser meu), quando de repente, em meio a um assunto qualquer, ele me saiu com esta expressão indignada:

- Tas a pensar que isto cá é a casa da tia Irene?!

No que eu:

- Casa da tia Irene?! - repassei mentalmente a lista de todas as tias a quem eu já havia sido apresentada, mas nada. Quem é a tia Irene afinal?

Explicou-me que não havia qualquer tia verdadeira, era apenas uma sentença de uso corrente para demonstrar indignação diante de uma atitude abusiva, enfim, "botar ordem no barraco", como dizem os brasucas. E foi daí que reconheci a expressão como equivalente da brasileira:

- Ah! "A casa da mãe Joana"!

No que ele:

- Mas quem é a mãe Joana?

E eu:

- Irmã da tia Irene, suponho!