sábado, 28 de novembro de 2009

ENSAIO SOBRE UM CÃO NO BANCO DA PRAÇA


A foto é o tema desta postagem. Foi tirada em Ponte de Lima, cidade da qual ainda pretendo lhes contar alguma coisa. Mas agora fiquemos com o cão.

Estavamos, eu e o meu português, caminhando pelas ruelas místicas de Ponte de Lima, quando me deparei com a cena que agora vêem: um cão de nenhuma estirpe, cãozinho portuga super vulgar - desses pelos quais os cartazes com fotos de nada valeriam para o caso de fuga, pois tantos existem neste país de mesmo tamanho e feição -, repousando num banco da praça sob o sol. Não resisti, tirei por aí meia-dúzia de fotos, dentre as quais escolhi esta que acompanha o texto. Calma, não torçam ainda os narizes para o meu pouco talento fotográfico. Se houver entre os leitores alguns de espírito otimista, escutem o que lhes tem a dizer esta amiga sincera (a despeito de toda presunção, uma escritora de nenhuma estirpe, escritorazinha luso-brasileira super vulgar - dessas pelas quais os cartazes com fotos de nada valeriam para o caso de fuga, pois tantas existem neste e noutros países de mesmo tamanho e feição).

O caso é que o cãozinho me fascinou porque fazia uso deste comportamento que sempre me pareceu extremamente europeu: sentar-se sozinho no banco da praça. Decerto que no Brasil também temos bancos em praças e temos quem neles se sentem. Mas estes são quase sempre aposentados e nunca ali permanecem por tanto tempo - e tão solitariamente - como vejo por estas bandas. Aqui ainda é comum vermos homens jovens sentados durante muito tempo numa esplanada ou num banco de praça, muitas vezes sem nada que lhes justifique o ato, tal como um fone no ouvido ou um jornal nas mãos. Até mesmo as mulheres o fazem, embora em menor constância - e não ouso neste instante tentar refletir sobre os motivos de tal disparidade, sabe lá aonde isso iria dar. Talvez seja mesmo um hábito de antigos imigrantes europeus que pouco a pouco se extingue curvado pelo sol escaldante dos trópicos. Ou seja apenas resultado dessas tantas questões contemporâneas pelas quais passamos: a dificuldade em ocupar espaços públicos, a falta de tempo, o medo do silêncio e da solidão etc., etc.

Ainda estranho não parecer estranha, porque sempre gostei de estar quieta e em silêncio, observando o movimento das ruas. Será esta uma minha parcela europeia de pertencimento? Desconfio que não. O que me instiga no ato é o olhar o mundo, ver a vida passar e perscrutar nos transeuntes aquelas histórias que só se revelam a quem as persegue. Mas por isso escrevo, transformo, crio. Se não o fizesse, teria eu esse desprendimento de me deixar pensar na vida, sentanda sob o sol numa praça qualquer? Os brasileiros temos medo da melancolia, vergonha de parecermos tristes. E há nesse impedimento uma tristeza bufa, muito opressora apesar de sutil. Querem nos fazer crer - os que nos pensam - que somos seres naturalmente alegres, apesar da vida muitas vezes agreste. Talvez por isso o compromisso inadiável com a alegria, ainda que aliado ao entorpecimento e à superficialidade. É verdade: após anos de prática podemos nos gabar de sabermos melhor da alegria do que o resto do mundo. A parte boa disso é que sempre será melhor sofrer sambando entre os amigos do que em recolhimento. Há uma confusão romântica entre tristeza e profundidade. É assim tão impensável um homem ser profundamente alegre, num sentimento fundo, intenso e íntimo, e para além disso estar comprometido com o mundo que o cerca?!

Quando vi o cãozinho sentado prazenteiramente no banco da praça - praticamente a encarnação de algum senhor português - pensei no quanto é preciso um sossego quase irracional para se permitir esta ousadia. E no entanto a abstração mágica de se retirar do mundo para estar nele me parece ser o lugar de excelência da reflexão. Mas serão pensadores os europeus que se sentam nos bancos das praças? Ou ali apenas se abandonam e abandonam-se no mundo num momento de paralisia como o fazemos, os brasileiros, quando muitas vezes nos jogamos em nosso ininterrupto Carnaval?

Como nos segreda a canção Gente da minha terra - entoada em coro comovido, quando da apresentação da cantora Mariza para uma multidão no Festival Sudoeste de 2009 - aos portugueses é ofertada a herança de uma tristeza que levarão consigo, não importa o quão seja negada; um fado que os amarra, que costura o indivíduo ao coletivo. Nas cordas da guitarra há lirismo, mas também condenação. Aos brasileiros, uma música em especial faz um possível contraponto: O que é, o que é?, de Gonzaguinha - canção que aprendi a cantar com minha mãe, nas festas de família, com a mesma comunhão e intensidade que se dedica a uma reza. Na versão brasileira, uma alegria infantil para encarar a vida, a sabedoria na resposta das crianças: não importam as adversidades, a vida será sempre bonita - por isso viver é não ter a vergonha de ser feliz. Como crianças, os brasileiros sorrimos, mas enquanto crianças haverá sempre quem decida por nós o que haveremos de comer ou a que horas dormir. Também no samba há lirismo... e condenação.

Cães não somos, a despeito de toda a ferocidade que nos possa habitar. Isso porque temos cultura, história, pertenças. Todas as diferenças em relevo, o que nos une é sermos opostos equivalentes. Por isso, por sermos tão distintos e iquais em nossa humanidade, teremos sempre o que aprender uns com os outos, sempre também o que partilhar. A identidade se contrói com tijolos já prontos; mas, embora nosso projeto já exista bem antes de nosso nascimento, somos empreiteiros de nós mesmos. Eis porque, dentro das nossas heranças particulares, temos a responsabilidade de nos reinventarmos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

UM COMBOIO EM REPOUSO


Acomodo-me. Um comboio recheado de vida à espera de andar - gesta. O meu amor na estação. Ao lado, esta mãe que não é minha, o fato engomado, uns quantos olhos mal lavados, sujos ainda de sonhos tantos, e essa gente, dessa que fala em público sobre seus íngremes pecados na esperança de colher partidários entre os ouvidos discretos do mundo. O meu amor pelo vidro, onde ele está? Há lugares ainda vagos, porém franzinos rebeldes mantêm-se eretos em sua juventude desperdiçando o vazio perene do agora. E há também os que quase chegam, os que ouviram ao de longe o aviso estridente dar sinal para as portas se fecharem. Cá dentro estão os que sutilmente já partiram, porque esperam. E, pronto, o meu amor para trás (pequeno, perdido, sumindo) a crescer ainda maior no meu peito - um comboio recheado de vida à espera de andar - gesta.