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Desde menina me vejo a fugir das aulas de ginástica. Nada contra, apenas uma pessoal inaptidão para o atletismo e, claro, falta de gosto por passar vergonha. De criança, sempre perdia o fôlego antes dos outros – anos mais tarde soube que isso tinha um nome: asma. Mas aí já era tarde demais.
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Neste ano, em nome da saúde e porque já não sou mais aquela menina que, embora trocasse as aulas de educação-física pela biblioteca, tinha tudo em cima, resolvi fazer alguma coisa pelo meu corpo. No Brasil foi facílimo: passei a caminhar no calçadão todas as noites. Ta bem, três vezes por semana. Vai, duas, quando a agenda permitia. Aqui em Portugal, o frio, os pastéis de nata e até a falta de espaços em Braga fizeram-me quebrar o meu quase juramento de nunca me matricular numa mega-academia (ou ginásio, como dizem cá). Alguns meses depois, acho que a coisa vai bem. Duas vezes por semana – ainda que pudessem ser três – uso a passadeira (esteira), a bicicleta, os aparelhos ou a piscina a que tenho direito de acesso. A única coisa que ainda não encarei – por medo, confesso – são as aulas coletivas. Só a idéia me espanta: volto logo a ver a criança atrapalhada que fui e ainda sou. Mas cobiço, um dia, essa ousadia de me meter numa dessas turmas frenéticas de pump, jump, pluft, sabe lá mais o quê.
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Qual não foi a minha surpresa, em minha última incursão no ginásio português, quando me deparei com um enorme cartaz anunciando: “O segredo das brasileiras agora é seu! M.I.B.: Made in Brazil”. Verdade, por enormes que fossem as letras do anúncio, o meu olhar foi primeiro afetado pela mega-bunda – ou cu, como dizem sem pudor os portugueses – ilustrando a notícia da nova modalidade de aula disponível aos alunos. A primeira coisa que me passou pela cabeça: que raio de segredo é esse? A segunda: por que nunca mo contaram? Vinte e oito anos de naturalidade e nacionalidade brasileiras e tenho agora que pagar para me revelarem um segredo que é meu por direito. Acaso as brasileiras têm todas as bundas que imaginam os portugueses?! A minha, conferi logo que cheguei em frente ao espelho do balneário, está bem longe do estereótipo Juliana Paes. Grande ela é, admito, mas em nada se assemelha ao tônus e lisura das bundas exibidas nas fotos de Copacabana divulgadas pelo mundo. Já antes havia escutado o disparate de que as brasileiras não temos celulite. Um preconceito elogioso, poderíamos julgar num primeiro momento. Entretanto, se todo preconceito pressupõe uma distorção da realidade, é importante pensarmos de que contexto provém a bunda em questão e quais segredos estão aqui em pauta (e à venda!).
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Em outras palavras, acreditar que toda brasileira é tarada e tem uma bunda perfeita pronta à degustação é um estereótipo tão estúpido quando imaginar que toda portuguesa tem bigode e cheira a bacalhau. Já passa da hora de as brasileiras admitirmos a depilação de buço - seja com cera fria, quente ou cordão chinês. E mais: a bacalhau cheiram todas as mulheres do mundo que não tomam as medidas higiênicas necessárias. Do mesmo modo, no Brasil, há bundas de todos os tipos - pequenas, grandes, médias, lisas, esburacadas, duras ou despencadas – mas a esmagadora maioria, garanto, é formada por bundas de muito respeito. Que cada mulher, em cada canto do mundo, lute pela honra, personalidade e bem-estar da sua!