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Já começo a cismar com esse hábito de abrir os textos do blog a pedir-lhes desculpas pelo meu desaparecimento. Não ignoro que, num blog, como manda a etiqueta, há que se publicar qualquer coisinha em curtos intervalos. Mas sabem bem que não é esse o meu caso. Já lá se vão alguns meses desde a minha última postagem.
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É que estou grávida. Aliás, muito grávida. E nos últimos tempos só tenho tido tempo para as três gravidezes que me preenchem. Em primeiro lugar, e já com grande atraso no parto, meu livro de contos que foi premiado no ano passado pela SECULT, “Teia Tecendo Aranha”, e será lançado nesta quinta-feira (16 de Dezembro) no Palácio Anchieta. Há também a gestação do doutorado – ou doutoramento, como dizem por aqui –, mas esta ainda há de durar muitos e muitos meses com direito a prazeres, dores e alguns quilos extras. E como os últimos serão os primeiros, a minha mais importante gravidez: Leonardo Ventura Xavier. Serei mãe de um portuguesinho! O que exatamente isso quer dizer eu ainda não sei, mas ensaio descobrir.
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Não consigo pensar que meu filho não será brasileiro. Para mim será, legalmente será, mas filho de português e nascido no solo mais lusitano desta terra – a bela Guimarães – talvez ele um dia não pense como eu. Repete-se a minha história, de algum modo. Para usar uma frase bem salazarenta: engrosso esse sangue que meu pai diluiu. Mas se engana quem pensa haver alguma pureza nisso, pelo contrário. Eu, que sou filha da fronteira, gero ainda mais fronteiras dentro de mim. Afinal, nacionalidade – hoje mais do que nunca – é sentido, não é fato.
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Teorias à parte, gostaria de compartilhar com vocês uma das minhas descobertas a respeito das questões cotidianas da gravidez em Portugal. Tal é a curiosidade: aqui, as mulheres, na hora do parto, puxam. Como assim? Também não entendi, mas já estou avisada deste pormenor. Na hora H, é isso que me dirá a parteira:
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- “Puxe, puxe, puxe!”
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E eu já me imagino irritadíssima, parando tudo, a querer argumentar:
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- “Se eu puxar, caríssima, ele não sai! Porque filho, pra nascer, a gente empurra. Empurra pra fora, pra vida!”
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Certamente ela desdenhará do fato de uma brasileira questionar um pormenor linguístico com os portugueses, verdadeiros donos da língua, blá, blá, blá e aquela conversa toda sobre o mito da lusofonia – acontece sempre. No que eu vou me virar para o anestesista e pedir resoluta:
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- “Aplica a epidural, se faz favor, e pega lá o Houaiss pra gente conferir isso, ainda dá tempo.”
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E lerei em alto e bom som:
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- “Ora, lá está! Puxar: fazer mover para perto de si; empregar a força física para fazer mover algo atrás de si; arrastar, tracionar; segurar e forçar para si, tentando arrancar ou como se o tentasse etc. etc.”
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Não lhes causa também imensa confusão essa inversão de sentido, principalmente em se tratando de uma palavra, digamos, chave, um grito de torcida, numa hora tão urgente como essa?!
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Logo de cara a gente pensa se tratar de algum estrangeirísmo, que as enfermeiras aqui devem ter assistido a muitos filmes em inglês. Mas, depois de conversar com alguns portugueses, descobri que o verbo puxar também é utilizado para outro parto cotidiano – e não me obriguem a ser mais escatológica do que isso. Voltemos à sala de parto:
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- “Só se for, então, minha parteira querida, que na etimologia da palavra encontremos esse sentido original, do latim pulsare.”
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No que ela, raios, 10 centímetros de dilatação, o Leonardo já coroando, gritará:
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- “É agora ou nunca, rapariga, tá calada e puxaaaaa!”
Já começo a cismar com esse hábito de abrir os textos do blog a pedir-lhes desculpas pelo meu desaparecimento. Não ignoro que, num blog, como manda a etiqueta, há que se publicar qualquer coisinha em curtos intervalos. Mas sabem bem que não é esse o meu caso. Já lá se vão alguns meses desde a minha última postagem.
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É que estou grávida. Aliás, muito grávida. E nos últimos tempos só tenho tido tempo para as três gravidezes que me preenchem. Em primeiro lugar, e já com grande atraso no parto, meu livro de contos que foi premiado no ano passado pela SECULT, “Teia Tecendo Aranha”, e será lançado nesta quinta-feira (16 de Dezembro) no Palácio Anchieta. Há também a gestação do doutorado – ou doutoramento, como dizem por aqui –, mas esta ainda há de durar muitos e muitos meses com direito a prazeres, dores e alguns quilos extras. E como os últimos serão os primeiros, a minha mais importante gravidez: Leonardo Ventura Xavier. Serei mãe de um portuguesinho! O que exatamente isso quer dizer eu ainda não sei, mas ensaio descobrir.
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Não consigo pensar que meu filho não será brasileiro. Para mim será, legalmente será, mas filho de português e nascido no solo mais lusitano desta terra – a bela Guimarães – talvez ele um dia não pense como eu. Repete-se a minha história, de algum modo. Para usar uma frase bem salazarenta: engrosso esse sangue que meu pai diluiu. Mas se engana quem pensa haver alguma pureza nisso, pelo contrário. Eu, que sou filha da fronteira, gero ainda mais fronteiras dentro de mim. Afinal, nacionalidade – hoje mais do que nunca – é sentido, não é fato.
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Teorias à parte, gostaria de compartilhar com vocês uma das minhas descobertas a respeito das questões cotidianas da gravidez em Portugal. Tal é a curiosidade: aqui, as mulheres, na hora do parto, puxam. Como assim? Também não entendi, mas já estou avisada deste pormenor. Na hora H, é isso que me dirá a parteira:
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- “Puxe, puxe, puxe!”
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E eu já me imagino irritadíssima, parando tudo, a querer argumentar:
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- “Se eu puxar, caríssima, ele não sai! Porque filho, pra nascer, a gente empurra. Empurra pra fora, pra vida!”
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Certamente ela desdenhará do fato de uma brasileira questionar um pormenor linguístico com os portugueses, verdadeiros donos da língua, blá, blá, blá e aquela conversa toda sobre o mito da lusofonia – acontece sempre. No que eu vou me virar para o anestesista e pedir resoluta:
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- “Aplica a epidural, se faz favor, e pega lá o Houaiss pra gente conferir isso, ainda dá tempo.”
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E lerei em alto e bom som:
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- “Ora, lá está! Puxar: fazer mover para perto de si; empregar a força física para fazer mover algo atrás de si; arrastar, tracionar; segurar e forçar para si, tentando arrancar ou como se o tentasse etc. etc.”
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Não lhes causa também imensa confusão essa inversão de sentido, principalmente em se tratando de uma palavra, digamos, chave, um grito de torcida, numa hora tão urgente como essa?!
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Logo de cara a gente pensa se tratar de algum estrangeirísmo, que as enfermeiras aqui devem ter assistido a muitos filmes em inglês. Mas, depois de conversar com alguns portugueses, descobri que o verbo puxar também é utilizado para outro parto cotidiano – e não me obriguem a ser mais escatológica do que isso. Voltemos à sala de parto:
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- “Só se for, então, minha parteira querida, que na etimologia da palavra encontremos esse sentido original, do latim pulsare.”
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No que ela, raios, 10 centímetros de dilatação, o Leonardo já coroando, gritará:
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- “É agora ou nunca, rapariga, tá calada e puxaaaaa!”
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Rrsrsrs... muito bom professora! Muita sorte com as gestações!
ResponderExcluirMuito feliz ver sua "rara" postagem. Felizes também suas gravidezes, especialmente essa que muda a vida de uma mulher para sempre, mais do que qualquer livro ou Título que se venha a conquistar...
ResponderExcluirQue a minha felicidade ao ver essa foto e ler esse texto chegue até você. Porque sim, é um momento muito feliz...