segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

TOM ZÉ SACODE GUIMARÃES

foto: Luana Botelho
.
Sabe quando você se depara com aquele anúncio de um evento imperdível que você já perdeu? Se era notícia de jornal, virou nota fúnebre; se era panfleto, virou santinho de missa de sétimo dia. Você olha, suspira de saudade e pensa em como a vida passa rápido. Volta e meia isso acontece comigo - efeito colateral de ser uma pessoa pouco afeita aos noticiários diários, de andar sempre três passos aquém do resto do mundo, magicando.
.
Na última sexta-feira, numa de minhas viagens rotineiras de final de semana para Guimarães, dei de fuça com a figura agigantada de Tom Zé num enorme out-door. Teorizei: putz, perdi mais uma! Mas, para minha alegria sem tamanho, o show estava marcado para o dia seguinte. A corrida à bilheteira (muito obrigada, Carlos!) rendeu-nos alguns dos últimos lugares da casa de espetáculos Centro Cultural Vila Flor.
.
O Grande Auditório do CCVF é por si só um espetáculo. Moderno e aconchegante, tem capacidade para uma plateia de até 800 pessoas. Já antes havia estado por lá, mas sempre entre as primeiras fileiras. Nesta noite pude comprovar que, mesmo entre os últimos assentos, está-se muito bem, tanto no que diz respeito à acústica quanto na vista para o palco. Tom lotou a casa e eu fiquei com aquela sensação gostosa de orgulho. É bom saber que um brasileiro é tão querido por esta cidade a que quero tão bem.
.
Já havia assistido a um show do Tom Zé em Vitória, do Espírito Santo, nos Armazéns do Porto - lugar com uma energia deliciosa, mas que, pelo menos na altura, deixava muito a desejar em relação à acústica e à ventilação. Tom Zé em palco é um furacão musical, disso eu já sabia, estava agora curiosa por ver como o receberia Guimarães, conhecida como berço de Portugal, cuja alcunha desejada atualmente é "cidade das ideias", ou coisa parecida, e que será Capital Europeia da Cultura em 2012.
.
De cara Tom Zé surpreendeu o público ao entrar no palco sem a mínima cerimónia, apresentando os excelentes músicos que o acompanhavam (Lauro Léllis, Renato Léllis, Jarbas Mariz, Daniel Maia, Cristina Carneiro e Luanda). Começou o show expondo as dúvidas de um tal taxista, Baptista - na plateia com mulher e filhas -, com quem havia feito amizade durante o dia. A questão era se Tom Zé faria um espetáculo cómico, dramático ou o quê. E ficou acordado entre todos que a dúvida persistiria durante o tempo que ali estivéssemos.
.
Com o show "Estudando a Bossa", salpicando aqui ou ali pérolas do repertório antigo, Tom Zé incendiou o auditório do Centro Cultural Vila Flor. Mais do que uma homenagem saudosa à Bossa Nova, Tom Zé foi capaz de levá-la ao futuro. Uma contradição deliciosamente criativa e bem cuidada. Uma aula! Ou melhor, aula não, porque isso fica soando assim como um ensinamento teso: foi antes uma oficina de ideias, de embaralhar as nossas ideias sobre a bossa, de criação! O público vibrou diante dos seus saltitantes 73 anos de genialidade musical, aplaudiu ereto, dançou, bateu palmas e pés pedindo mais, e, o melhor, saiu dali com um sorriso persistente nos lábios.
.
Tom Zé e toda a sua competente malta podem ter a certeza de que Guimarães ficou "atoladinha". E, claro, de que o taxista Baptista, interlocutor durante todo o espetáculo, provavelmente não conseguiu chegar a nenhuma definição fixa do que era "aquilo" (e nem eu), mas ganhou no mínimo mais 800 passageiros sedentos de um papo sobre essa incontornável figura da música popular brasileira.
Venha de síncope, meu bem, isso dá pé
no bole-bole do Tom Zé!